sexta-feira, 12 de abril de 2013

A tal intimidade



Sábado à tarde, uma brisa morna entra pela janela da cozinha e eu sei que o exercício de química não se resolverá sozinho, mas não consigo mais olhar para a cara dele.  A química me odeia, ela faz questão de deixar isso bem claro. Ele está na minha frente, escrevendo algo no caderno dele, então olha para cima e vê que não consegui fazer nenhum exercício do livro. Ouço o lápis dele cair na mesa, a cadeira se arrastando e logo ele estava do meu lado. Os braços dele me envolvem num abraço, ele me beija e se senta o mais perto possível para me ajudar com os exercícios tão detestáveis. Palmas para a intimidade!


Ao contrário do que muitos simplistas pensam, intimidade é muito mais do que ficar pelado na frente do outro. Intimidade é saber reconhecer o significado do silêncio e da quietude de quem se ama. É olhar para o lado e saber que ela precisa de um abraço urgente, bem apertado, ou que necessita apenas que você se afaste e a deixe só por alguns minutos. Intimidade é entrar, sem que ele precise abrir a porta ou mandar convite escrito em formais letras garrafais e pretas em um belo papel cartão. Intimidade é mandar aquela cantada de pedreiro depois de uma conversa estranha só para ouvir a risada dela e saber que está tudo bem. Intimidade, de verdade, é uma junção harmônica de cores distintas. Intimidade não nasce com o casal, é uma arte que precisa ser conquistada com muito treino, dedicação, empenho e principalmente atenção aos sinais cotidianos emitidos por quem se ama. Digo mais, sempre haverá momentos de individualidade e esses deverão ser preservados e respeitados – os verdadeiros íntimos sabem disso.

Não pense que é fácil ser faixa preta nessa tal intimidade, nem ache que para isso basta o despudor ou a coragem de conter-lhe seus segredos mais obscuros. Isso não é intimidade! Para ser íntimo de alguém, você precisa manter os olhos bem abertos e ficar atento a todos os detalhes, só assim entenderá qual tipo de sorriso ele soltará de acordo com cada peculiar situação. É mais que isso, não basta fingir que está ouvindo e pensar na morte da bezerra enquanto ela fala com você. Deve-se escutar cada palavra e de fato ouvir, só assim perceberá os desabafos escondidos por trás do discurso despretensioso dela. Se quiser intimidade, precisa estar realmente encostado nele, não no sentido sexual, mas de pele colada, de mãos dadas, nariz com nariz, pois só assim será capaz de entender do que ele tem medo e fará isso apenas devido ao sutil apertar dos dedos dele em sua mão.

Intimidade é estar apto a ler até os sinais mais complexos do outro. É saber fazer um pedido utilizando apenas uma olhar e tornar-se capaz de compreender o bê-á-bá escrito pelas expressões de quem se ama.

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